Ano 505, 1ª Meia-Lua de Jade.

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Dia 3 — Estrada para a capital

O frio chega primeiro pela espinha.

Cid se encolhe junto à lareira de pedra, enrolado em um cobertor de pele. A madeira estala. O calor mal vence o vento que geme pelos túneis artificiais da caverna.

— Que frio desgraçado…

Ele sopra nas mãos, empurra mais um galho no fogo e observa a pilha de lenha — baixa demais para qualquer tipo de otimismo.

Ele suspira, joga o cobertor de lado e se levanta.

O corredor em espiral protege a entrada; uma curva de pedra bloqueia o vento direto. Ainda assim, quando ele pisa do lado de fora…

— Pelos nove infernos, eu acabei de sair!

O pé nu toca a neve. O corpo inteiro trava. Ele volta correndo.

— Botas! Botas! Botas!

Minutos depois, calçado e ainda xingando a própria linhagem genética, Cid encara a nevasca outra vez. Passos longos, metódicos, testando o chão antes de confiar o peso.

— Oito… nove… dez…

Uma pequena viga de terra se ergue atrás dele, marcando o caminho de volta. Outra… e mais outra. A nevasca cobre metade em segundos.

— Maravilha. Estou decorando a própria cova.

Duas batidas no tronco. O som oco confirma. A picareta desce pesada; a madeira morta se parte fácil. Ele agarra a árvore pelo tronco e começa a arrastar.

— Viajar no inverno… ideia genial!

Os galhos quebram sob suas mãos, acompanhando as reclamações. Estalos secos.

— Uma picareta para a viagem inteira… parabéns, Cidiney — clack — … quem precisa de machados quando se tem burrice hereditária?

Um grito. A picareta, debaixo do braço, cai sobre a neve fofa.

— ALGUÉM! AJUDA!

Cid congela. Uma voz masculina, rouca.

— AQUI! DO OUTRO LADO!!

Ele puxa a touca até encontrar o cachecol e força os olhos contra a neve. Duas sombras surgem. Um homem e uma mulher. O homem carrega uma garota pequena, o rosto vermelho demais para ser só frio.

— Rápido! Entrem!

Dentro da caverna, o calor da lareira recebe o trio. A menina é deitada na cama de pedra. A mãe torce um pano úmido e o coloca na testa da filha. A respiração dela sai pesada, irregular.

— Obrigado… — o homem diz, sem fôlego.

Cid alimenta o fogo.

— O que vocês estavam fazendo na estrada nesse inferno?

— Sou mercador… — o homem responde, sem tirar os olhos da filha. — As tempestades começaram cedo. A ponte caiu.

A mulher continua:

— Ela sempre foi saudável… nunca tivemos nada assim…

O homem tira a luva, aperta as mãos por um breve momento, testando os próprios dedos dormentes.

— Onde estão meus modos… — ele pensa em voz alta. — Eu sou Christopher. Esta é Ellie… e ela… — a voz falha — Catherine.

Ainda parado frente ao fogo, Cid estende a mão, maior e mais forte que a do pequeno mercador.

— Cidiney. Cid já serve.

O aperto de mão é rápido. Christopher sente os calos e a aspereza contra a palma da mão.

— Mineiro?

Cid sorri, olhando para a picareta encostada ao lado da lareira.

— Por parte de mãe. A outra metade, herbalista por parte de pai.

Cid se aproxima da garota. Seu olhar vai direto para a garganta; ele massageia as amígdalas. A primeira coisa a procurar são infecções ou inflamações. Cid puxa da mochila um pequeno saco com palitos de madeira. Ele abre a boca da garota, forçando a língua para baixo.

— Vamos ver se não há algum pus na garganta.

Em um movimento de mão, um pequeno círculo se abre sobre a pedra, deixando a luz do dia entrar. Ele posiciona a jovem; a sombra desaparece. A garganta está perfeita, rosa e saudável.

Ele testa a língua.

Depois joga o palito fora, sobre a lareira, e, com um movimento fluido, abre os olhos da garota. Olhos brancos, pupila respondendo como deveria.

— Até agora, tudo bem.

Ellie sorri.

— Graças a Deus.

Mas a expressão de Cid não é de alívio. Ele observa as articulações, escuta a respiração, olha o nariz. Nada. Nenhum outro sintoma.

— Tem mago na família?

— Não — Christopher responde de imediato.

Ellie hesita.

— Minha bisavó… diziam que a mãe dela… brilhava à noite…

O estômago de Cid afunda. Com um movimento brusco, a pequena abertura no teto se fecha.

— Merda!

Os movimentos dele perdem a compostura: agitados, arredios. Ele corre até a mochila e volta com um pequeno pacote; retira um punhado de erva verde, coloca algumas flores pequenas de aroma doce e tritura tudo em um pequeno pilão. Cada movimento parece apressado, desesperado.

— Vai segurar a febre.

Ele infunde em água fervendo, resfria até ficar morno e faz a criança beber, enquanto a mão treme, fazendo o líquido respingar.

Christopher o segura pelo braço.

— O que ela tem?

Cid quase hesita.

— Se não chegarmos a uma catedral… ela morre.

Silêncio.

A menina solta um gemido fraco.

E o frio lá fora parece ficar ainda mais perto.

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