No Império Krania, na extremidade nordeste de Lyussenford, uma região fronteiriça com o domínio proibido do dragão maligno, erguia-se uma torre abandonada onde os rejeitados pela lei eram deixados para apodrecer. Dentro de seus muros jazia a Arquiduquesa de Lyussenford. Com apenas vinte e cinco anos, reduzida a uma carcaça esquelética, seus cabelos ralos, seu corpo nada mais que pele e osso, aguardando o fim.
O frio era cortante. A dor era excruciante.
Quando foi a última vez que lhe trouxeram comida? Sua mente, debilitada pela fome, lutava para formular um único pensamento coerente. Ela havia derretido neve para beber, mas até mesmo esse recurso havia se esgotado há muito tempo.
Kaela — a Arquiduquesa, outrora marcada por epítetos como** “Traidora do Norte”, “Fantoche do Imperador” e “Feiticeira Ardilosa”** — estava destinada a terminar sua vida definhando em uma torre onde o vento assobiava pelas frestas, uma prisão da qual não havia escapatória.
Uma vez que o próprio marido, o Arquiduque de Lyussenford, a havia trancado nesta torre, a suspensão de suas porções de comida foi, sem dúvida, também um decreto dele.
'O que eu fiz de errado?'
A fome era uma agonia horrível e lancinante. Sua cabeça e estômago doíam tanto que até mesmo pensar se tornava um esforço, mesmo assim, Kaela continuava se questionando. Ela não sabia qual era seu crime. Se fosse realmente culpada, talvez o erro tivesse sido simplesmente existir. Se esforçara tanto para suportar a recepção fria dos nortenhos, apenas para acabar ali, definhando, enquanto encarava as costas de um marido que amava outra mulher.
A acusação era ter vazado informações sigilosas da fronteira ao Imperador e provocado discórdia entre o Arquiduque e a Coroa. Embora o Imperador detestasse profundamente seu marido, Kaela não se lembrava de ter cometido traição. Parecia que havia sido vítima de uma armação.
Mas por quem?
Kaela não sabia. Fora tão completamente isolada que sequer tinha informações nem para imaginar quem eram seus conspiradores.
Ao longo de seu casamento, por ser do Sul, ela foi tratada como uma forasteira. Mesmo que seu pai, meio-irmão do Imperador, tivesse morrido pelas mãos dele, Kaela ainda era sua sobrinha.
O povo de Lyussenford lutava contra um clima impiedoso, dragões desenfreados e frequentes incursões de tribos estrangeiras; eles dependiam dos suprimentos enviados pelo Imperador. E o odiavam, pois ele usava esses suprimentos como moeda de troca para impor seus caprichos. Como não deveriam detestar Kaela, que viera no lugar da mulher originalmente destinada ao cargo de Arquiduquesa.
Hyperion Savrand Ferraro. O Arquiduque. Tivera uma vida miserável. Filho ilegítimo da Imperatriz. Odiado pelo Imperador. Exilado para a fronteira. Privado da mulher que amava. Detestava ver o nome Kaela De Chasseur gravado ao lado do seu.
Hyperion Savrand Ferraro. Mesmo agora, enquanto sua consciência se esvai sob a
agonia, seu nome permanecia vívido. É difícil esquecer o homem que se amou desde a infância.
'Haverá uma guerra.'
Para o Imperador, que passara anos monitorando, suspeitando e pressionando Peon, a morte de Kaela, que nem sequer era tratada como família, seria uma desculpa conveniente. Matar a sobrinha do Imperador e desfazer um casamento que ele próprio orquestrara! Pensar que demonstrara misericórdia ao permitir que o bastardo sem pai entrasse para a família imperial! Com sua morte, ele poderia acrescentar inúmeros novos crimes à lista de acusações.
A relação entre Pheon, o filho ilegítimo da Imperatriz, e o Imperador fora tóxica desde o início. Mesmo que apenas por causa de sua mãe, a quem o Imperador mantinha trancada a sete chaves, Pheon acabaria por travar uma guerra total.
Que ela ainda se preocupasse com o marido que logo se envolveria em um conflito mortal, mesmo nesse estado, era pura tolice. Era realmente uma tola impotente e sem caráter que, apesar de sua incapacidade de realizar qualquer coisa, tinha ideais muito elevados e se apaixonou por um homem que pertencia a outra pessoa.
'...Ah. Realmente, eu cometi um erro.'
Se havia algo de que Kaela sempre fora culpada, era sua incapacidade de desistir de um homem que dedicara a vida inteira a uma única mulher. Desde os tempos em que ele era apenas “O irmãozão Pheon”, quando o conheceu ainda criança, muito antes de se tornar o frio e distante Hyperion…
O homem amava sua amiga de infância, Beatrice Lavalle, filha do Duque de Monde. Pheon a amava com uma devoção cega e desesperada. Por isso mantinha Kaela sempre à distância. Era, embora uma comparação inadequada, semelhante à obsessão do Imperador pela Imperatriz.
Pheon fizera da fidelidade a Beatrice sua própria religião.
Pheon jurara nunca trair Beatrice. Um homem assim, naturalmente, tratava Kaela como se ela não existisse e, com o tempo, passou a detestá-la. Seria um crime, então, ter continuado a amá-lo de forma tão presunçosa? Ela não sabia. Já não importava.
Sua mãe havia falecido quando ela era criança, e seu pai fora assassinado sem motivo algum. Perdera os títulos da família. Fora vendida em casamento. Acabara rotulada como traidora. Tivera uma vida miserável. Infeliz. Em Lyussenford, Kaela realmente fizera o melhor que podia.
Mas não recebera nenhuma recompensa. No final, apenas a morte lhe fora concedida, como se fosse uma conclusão natural, ou talvez uma misericórdia. Sua visão escureceu. O frio e a fome eram tão severos que pareciam um alívio. Ela queria morrer logo. Desejava que aquela dor acabasse.
Então, um rangido quebrou o silêncio, e a pesada porta de ferro se abriu de repente.
— Vamos verificar.
Ela ouviu uma voz.
Kaela jazia na sujeira fétida do chão e nem sequer conseguia virar a cabeça. Reduzida a pele e osso, já não possuía força para se mover. Embora pertencesse à família imperial, seu fim era miserável. Ouviu o som seco e ritmado de botas femininas ecoando pelas pedras.
— Oh, meu Deus. Isso é problemático.
O mau cheiro desapareceu quando a porta se abriu completamente. Na visão turva de Kaela, ela viu uma mulher debruçada sobre ela.
‘Beatrice?’
— Você ainda está viva, Kaela. Vejo que me reconhece.
Kaella observou a mulher, que falava com um sorriso de escárnio, enquanto seus pensamentos vagavam sem rumo.
Por que ela estava ali? Pheon a havia chamado? Bem, sua esposa se tornara uma criminosa e fora presa, então o casamento havia acabado. Ele deve ter pensado que finalmente era hora de reconquistar o único amor verdadeiro pelo qual tanto ansiara. Eles deveriam ser felizes juntos.
Mas Beatrice não estava sendo mantida como refém pelo Imperador? Como ela tinha chegado ali? Ah, isso não importava.
À beira da morte, Kaela já não tinha forças para processar aquela contradição.
— Coitadinha. Ficou tão horrível. E, ainda assim, continua viva.
Beatrice murmurou num tom claramente zombeteiro.
Como filha do Duque de Monde, sempre teve ressentimento por Kaela, filha de Ostain, que ocupa uma posição social superior à sua.
— Que inconveniente.
Parecia irritada porque Kaela ainda não havia morrido.
— Sabe, Kaela, dizem que o último sentido a se perder quando morremos é a audição. Então, que tal eu contar uma história divertida? E aí, você pode morrer depois de engolir isso.
Beatrice Lavalle riu enquanto tirava um pequeno frasco de suas vestes. Kaela não tinha como resistir.
— Você não quer morrer?
Não queria? A dor era tão intensa que a morte parecia um alívio. Kaela a desejava. Queria morrer há muito tempo, talvez até antes de ser trazida para aquela torre.
— Mas não há escolha. O nobre e justo Arquiduque de Lyussenford só poderá ser inocentado de ser um criminoso se a inocente Kaela De Chasseur morrer.
Beatrice tagarelava, visivelmente satisfeita.
‘Eu fui enganada.’
Kaela percebeu imediatamente. Ela havia sido manipulada, e seu marido também. Todos foram marionetes de Beatrice.
Mas era tarde demais.
Kaela observou Beatrice abrir o frasco e deixar o veneno escorrer entre seus lábios ressecados. Longe de sentir indignação, ela acolheu o líquido que deslizou por sua garganta. Estava tão faminta que teria consumido qualquer coisa, até mesmo veneno, só para ter a chance de acabar com aquela dor. Finalmente poderia encontrar seu pai e sua mãe. Sua mente já estava se desfazendo.
— Vai acabar logo. Vou contar uma história divertida no seu fim.
Enquanto a morte descia por um esôfago que não recebia alimento havia dias, Beatrice falava como se estivesse cantando.
— Coitadinha, pobre Kaelazinha. Neta do nobre falecido Imperador e filha de um bastardo, a senhora de Ostain. Você sabia, o Duque de Ostain, seu pai…
Teria o frio entorpecido sua dor? Por que as palavras daquela mulher, a quem jamais conseguira alcançar, soavam tão claras agora?
— Ele morreu por causa do meu amorzinho, O Imperador. Meu Vincent puxou o gatilho, “bang”, e matou seu pai, não foi?
A mulher, por quem o marido suspirava, chamou o Imperador, padrasto do marido de "meu amorzinho". Certamente ela ouvira errado? Mas Beatriz continuou com uma voz sonhadora.
— Você sabe por que Vincent estava justamente limpando sua pistola quando estava com seu pai naquele dia?
A causa oficial da morte do Duque de Ostain foi um acidente com arma de fogo. Alegaram que o Imperador o havia matado acidentalmente enquanto limpava sua arma.
Beatrice despejou o veneno tanto na boca da moribunda Kaela quanto em seus ouvidos. Em sua visão turva, ela parecia radiante de felicidade.
— Essa arma foi entregue a ele pelo seu marido, Pheon.
Beatrice, que enfatizara especificamente as palavras seu marido, ficou satisfeita ao ver o choque surgir nos olhos enfraquecidos de Kaela, que já não demonstravam o mesmo brilho. Ver aquela garota irritante, que sempre tivera um status superior ao seu, receber um golpe desses em um estado tão miserável era extremamente gratificante.
— Bem, talvez não seja do seu agrado, mas ele precisa desempenhar bem o papel de bom enteado para que Lyussenford permaneça em paz, Sua Majestade a Imperatriz permaneça segura e eu, seu amor, fique protegida.
Beatrice falou como se estivesse zombando de Pheon.
— Ele a entregou pessoalmente a Vincent, sabendo perfeitamente para qual seria o uso. Afinal, de onde mais viria uma pistola decente? Todas vêm deste lugar frio.
Lyussenford era famosa por sua produção de armas.
— Já que tudo começou assim, não é apropriado que termine desta maneira? Você se esforçou bastante durante quatro anos, não foi? Era estúpida demais para perceber que todos a odiavam.
Ah.
Enquanto ouvia com a mente quase paralisada, Kaela ao menos compreendeu quem a havia incriminado. Beatrice estava por trás de tudo. Era por causa daquela mulher que ela estava morrendo.
— Bem, Pheon está do meu lado, então o que ele pode fazer? Ele é meu servo desde criança. Eu o manipulei dessa forma, fiz uma lavagem cerebral nele, para que nunca pudesse fugir. Os dois são um par de idiotas. Bem, fui eu quem transformou vocês assim.
Beatrice deu de ombros, olhando para Kaela.
— Tadinha. Você se casou com o homem que matou seu pai, nunca recebeu amor algum e agora está morrendo de uma forma tão injusta?
Kaela não conseguiu refutar aquelas palavras. Um sono bem-vindo a envolveu.
Foi a morte.
Ela estava feliz porque o cansaço e a dor finalmente estavam chegando ao fim.
🌸🌸🌸
— ...Senhorita! Senhorita!
Ao ouvir aquela voz estranhamente aguda, Kaela estremeceu e abriu os olhos de repente, arfando.
— Ah, céus, me desculpe. Eu devo tê-la assustado. ...A senhorita está bem?
Cecile, a criada que trabalhava para a casa ducal de Ostain, observava com preocupação sua jovem senhora, que respirava com dificuldade e olhava ao redor do cômodo com os olhos trêmulos. Seus belos olhos arregalados, tremendo enquanto olhava em volta como se estivesse diante de uma paisagem aterrorizante.
— Está se sentindo mal? Teve um pesadelo horrível?
As sensações voltaram com força; ela sentiu o ambiente ao redor com uma clareza absoluta e perturbadora. A voz, o calor agradável do ambiente, o toque do sofá de veludo e da almofada onde estava deitada, o vestido macio e esvoaçante que envolvia seu corpo e seus braços, que possuíam uma quantidade saudável e confortável de carne. Tudo era tão naturalmente vívido que chegava a ser assustador.
— Meu Deus, como seu rosto está pálido. Deve ter sido um pesadelo terrível.
Kaela ofegou em busca de ar e agarrou a mão que Cecile lhe estendera. Uma mão firme, áspera, seca e calejada. Estava quente. Muito quente.
— Está tudo bem? Por favor, acalme-se. Foi apenas um pesadelo. A senhorita ficou com medo?
Ela estava com medo? Ela estivera apavorada, sofrendo uma agonia terrível. Mas agora, não sentia dor, ou frio, nem mesmo aquela fome monstruosa.
Kaela olhou ao redor do quarto, que lhe parecia estranho apenas porque fazia muito tempo que não o via.
Era claramente o quarto da casa do Duque Ostain que ela usava antes de se casar. A cama de dossel com cortinas brancas, o edredom limpo e grosso, o armário sólido e as almofadas com estampas discretas. E na parede em frente à cama, um espelho.
Kaela levantou-se de um salto e, ainda segurando a mão de Cecile, correu até o espelho.
— Senhorita?
Cecile ficou horrorizada ao ver a única filha do Duque de Ostain encarando o espelho e, de repente, estapear a própria bochecha.
— Meu Deus! Senhorita! Senhorita!
A filha de Ostain, que acabara de atingir violentamente a própria bochecha delicada que ainda conservava a suavidade da juventude, balançou a cabeça e ajeitou de forma brusca os cabelos desalinhados.
Então respirou fundo e se virou para a aflita Cecile.
— Por que você me acordou? O que está acontecendo?
Sua bochecha ardia. A dor que sentira por um breve instante era real. Estava acordada? Sua mente sempre fora afiada, cortante como uma lâmina. Precisara ser assim no Norte, onde caminhava constantemente sobre o fio de uma espada. E ainda assim morreu. Então o que era aquilo?
— Sua Graça, o Duque, pediu para falar com você... Sua bochecha está vermelha. Deveria ao menos aplicar uma compressa.
— Vai desaparecer sozinha. Você fez bem em me acordar. Obrigada!
— Senhorita…!
A mão que golpeara sem piedade o próprio rosto tremia, mas Kaela saiu do quarto mesmo assim. Ela precisava descobrir se aquilo fora apenas um pesadelo longo e terrível ou se era real.
'Um sonho? Não me faça rir. De onde viria um sonho tão longo e detalhado?'
Como poderiam os dias de tortura que ela passou no Norte, em Lyussenford, ter sido um sonho? Ou Kaela tinha enlouquecido, ou era algum tipo de magia maligna.
'Ou talvez seja uma ilusão.'
Lágrimas brotaram de seus olhos, e Kaela às enxugou rapidamente. Talvez aquela situação fosse apenas uma ilusão à qual ela, agora morta, se agarrava desesperadamente. Ainda assim, era, pelo menos, uma época em que fora feliz.
Ah…
Os corredores, inundados pela luz do sol que entrava pelas grandes janelas, eram familiares. Caminhos que ela havia esquecido começavam a retornar à sua memória. Kaela procurou o caminho até o escritório do pai. Tropeçou levemente algumas vezes, mas encontrou o trajeto com uma facilidade gravada pelo hábito. A escadaria imponente, o terraço aberto e os corredores cobertos por pedra bege em vez de carpete. Tudo era tão característico de Ostain.
Sentindo medo, ela bateu à porta do escritório. Seria aquilo um sonho cuidadosamente construído? Ou os habitantes de Lyussenford estavam tentando brincar com ela?
— Entre.
Seu coração despencou. A voz que veio do outro lado da porta pertencia a alguém que desaparecera de sua vida havia tanto tempo, mas que agora soava tão nítida.
O que diabos estava acontecendo?
Com o coração martelando no peito, Kaela abriu cautelosamente a porta do escritório.
— Tenho que ir ao Palácio Imperial hoje, então você terá que jantar sozinha. Posso me atrasar, então vá dormir primeiro.
Era o pai dela. Realmente o seu pai. O homem cuja cabeça fora tão tragicamente esmagada a ponto de ser quase irreconhecível estava agora diante dela, devidamente vestido e vivo. Kaela o encarou, atordoada.
— Va-Vai ao Palácio Imperial?
— Sua Majestade me convocou.
Era um déjà vu? A situação, repetindo-se exatamente como ela se lembrava, era sinistra e estranha.
Ela reconheceu o casaco azul-marinho, o colete cinza e a calça bege-clara que seu pai — seu pai vivo — estava vestindo naquele momento. E sabia exatamente quanto sangue havia sido derramado sobre aquelas roupas. Sim. Era exatamente a roupa que seu pai vestia quando morreu.
— Por quê?
Kaela nunca soubera por que seu pai havia ido ao palácio naquele dia. Por isso perguntou.
— Quem sabe? Sua Majestade sempre me convoca sem explicações?
A resposta direta denunciou sua relutância. Kaela levou as mãos à cabeça, confusa.
— Mas o que aconteceu com o seu rosto? Não… você foi agredida? Por que está assim?
O homem que ela se lembrava de estar morto aproximou-se, com uma expressão preocupada e segurou sua bochecha avermelhada.
— Não é nada.
Dizendo isso, Kaela começou a vasculhar o escritório. Não havia tempo para reencontros ou lembranças. Mesmo que aquilo fosse um sonho, se não agisse corretamente, se arrependeria profundamente quando acordasse.
— Não é nada? Sua bochecha está vermelha! Mas por que está pegando isso?
Adeo De Chasseur, Duque de Ostain, ficou surpreso ao ver sua filha, com a bochecha inchada, abrir o cofre do escritório e retirar uma ferramenta mágica protetora — um dos tesouros herdados da família.
A filha, segurando o colar dourado, falou seriamente:
— Não sei por quê, mas, por favor, use isto antes de sair.
— Não, mas por que de repente...
— É para proteger seu corpo pelo menos uma vez. Nunca se sabe o que pode acontecer, então, por favor, use. Não tire. Entendeu? Estou implorando, pai.
O pai, que era muito mais alto que ela, não conseguiu recusar o pedido da filha, que ficou na ponta dos pés para prender o artefato em seu pescoço e escondê-lo sob a camisa. Afinal, ele era um pai normal, que se mostrava incrivelmente fraco quando se tratava de sua única filha.
— E...
Não havia tempo. Antes que ele partisse, Kaela suplicou quase de joelhos.
— Não confie em Sua Majestade, pai. De jeito nenhum. Por favor.
Era um fato conhecido por todos. O Imperador era um canalha e um psicopata escondido atrás de uma máscara refinada. Depois de se despedir do pai, incapaz de contestá-la, Kaela mordeu o lábio e finalmente se levantou.
Se interferisse numa reunião entre o Imperador e seu pai, ambos poderiam correr perigo. O Imperador era um homem assustador. Embora fosse o sucessor legítimo do trono, sua paranoia o levou a massacrar os próprios irmãos pelos motivos mais insignificantes, e também sequestrou a atual Imperatriz, rompendo seus noivados políticos com outras nações para se casar com ela, mantendo-a praticamente confinada desde então.
Sua crueldade atingiu o ápice quando ele começou a atormentar Pheon após o seu nascimento. O Imperador abusou psicologicamente de Pheon, que estava no início da adolescência, e manteve sua mãe, a Imperatriz, como refém, forçando o jovem a ir para o desolado Norte para enfrentar dragões malignos.
“Você sente falta da sua mãe? Então rasteje e obedeça como um cachorro.”
Ele maltratava o menino e insultava a Imperatriz, chamando-a de prostituta imunda num dia e elogiando-a como uma dama nobre no dia seguinte. E, no entanto, ele próprio gerara vários filhos ilegítimos, colocando-os uns contra os outros para ver quem herdaria o trono. Era um psicopata que exercia o imenso poder imperial conforme seus caprichos. Mas Kaela precisava fazer alguma coisa para proteger seu pai de alguém assim.
Aquele simples artefato mágico, capaz de bloquear um único ataque, poderia deter uma bala. Mas será que haveria apenas uma bala? Ao chegar a essa conclusão, Kaela levantou-se de repente.
— Preparem a carruagem!
Na verdade, ela estava morrendo de fome.
Havia tantas coisas que queria comer. Bolo macio, carne de cordeiro que derretia na boca, legumes cozidos, qualquer coisa serviria. Mas, em vez de correr atrás de comida após tanto tempo sem provar nada a ponto de nem lembrar mais do sabor, Kaela seguiu diretamente para o Palácio Imperial. Se fosse morrer, era melhor morrer ao lado de seu pai. Morrer sozinha e injustamente no Norte era algo de que estava cansada, mesmo em um sonho.
— Vou ao Palácio Imperial.
A carruagem dos Ostain atravessou novamente os portões do palácio naquela mesma noite.
Assim que parou, Kaela saltou para fora e correu em direção à “Floresta Sagrada”, o local onde seu pai fora assassinado.
Todos, exceto o Imperador, a chamavam de Jardim do Monstro.
Se fosse morrer, preferia ser atingida pelas balas do Imperador ao lado de seu pai. Ou, pelo menos, precisava impedir o Arquiduque de Lyussenford, seu marido, que certamente estaria lá.
E, como esperado, ao longe, na entrada do jardim, ela viu um homem extremamente alto e de ombros largos. Nas mãos dele havia uma caixa contendo a arma que mataria seu pai.
— Arquiduque!
Ela correu através daquele pesadelo, detendo o homem que jamais ousara enfrentar.
Kaela De Chasseur, senhora de Ostain, lançou-se diretamente no caminho de Hyperion Savrand Ferraro, o Arquiduque de Lyussenford.
Continua…
**Tradução e Revisão: Elisa Erzet **